13 de set. de 2016

O grito de alerta

Não tenho PhD em saúde mental, não consigo nem concluir minha faculdade que está parada a meses. Mas sei bem o que é sentir na pele o desespero e a dor de lutar contra você mesma dia após dia. Há quem diga que é frescura, outros dizem que é falta de fé em Deus, ainda há aqueles que diz que é coisa de gente preguiçosa e vagabunda. A verdade é que tantas denominações não fazem a mínima diferença pra quem passa ou já passou pela mesma situação.
Confesso, já fiz parte da grande massa que julgava pessoas neste estado. Achava que era tudo tão simples de resolver, que a vida é linda e intensa demais pra se trancar num quarto escuro e chorar e chorar... “levanta daí menina, lava esse rosto, coloque a melhor roupa e vá dar uma volta na praia, vá visitar um asilo, ou qualquer outra pessoa que esteja passando por momentos mais desconfortáveis que o seu.” Mal sabia eu o que estava por vir. 
Tudo o que vemos de fora parece simples e fácil de resolver, até nos depararmos com aquela situação na nossa frente, como tema principal do nosso enredo. Não sei dizer onde e como tudo começou, só sei que de repente tudo ficou cinza, e não me questione motivos óbvios e lógicos para tal acontecimento, porque não saberia te responder. Ela veio e me pegou de jeito. Nos dias árduos e cinzentos, nada mais fazia sentido, eu me olhava no espelho e já não me reconhecia, ou será que nunca me conheci de verdade?
Sempre insatisfeita com o que via, insegura com tudo e todos, nada fazia sentido e nada despertava dentro de mim. A única forma de me sentir viva era me aventurar nas noites frias da cidade, mascarada de alegria e felicidade “contagiando” quem estivesse ao meu lado. A sociedade é cruel. O fraco e deprimido não tem vez. Então se quer fazer parte de um bom círculo de “amizades” vista a sua melhor roupa e faça o seu melhor show. As pessoas me adoravam, eu era a mais divertida, engraçada e animada dali. Contagiava a todos com o meu sorriso e isso fazia com que surgisse inúmeros convites para fazer parte das turmas. Ninguém tinha ideia do que acontecia no meu universo interior. A cada festa, a cada bebida, só acumulava mais sofrimento interno. A alegria estonteante tinha prazo de validade. Ela durava até o portão de casa. Dali pra dentro a armadura era arrancada e só me restava lágrimas e desespero.

Esses momentos perduraram por vários meses. E eu pensava que isso tudo era normal. Todo mundo tem seus momentos de tristeza certo? A minha tristeza me consumia por completo. Sonhos e planos já não fazia parte da minha realidade. Aos poucos fui descuidando da aparência, já que eu mal me conhecia verdadeiramente. Com isso a pouca auto-estima foi se esvaindo até que minhas máscaras e armaduras começaram a perder o efeito e me descobriram de verdade. Essa descoberta foi profissional. Eu trabalhava cercada de pessoas entendidas do assunto e uma mão foi estendida a mim. Fui diagnosticada com depressão severa. Eu estava num ponto crítico em que nada me fazia sentir viva. Nem as festas, nem os amigos, nem a família e nem os “falsos” amores. Eu vivia no modo automático e achava que tudo isso era extremamente normal.
Fui indicada a fazer terapia e etc. Porém meu próprio preconceito não me fazia acreditar que isso era verídico, achava que não precisava de nada disso, que logo logo essa fase iria passar. Entrei no estado de negação. Até perceber o mundo caindo ao meu redor. Bom, resumindo para que esse texto não se transforme em livro.
A depressão (falo com minhas palavras) mesmo que pareça só uma tristeza boba, ela é grave, é uma doença e se não tratada ela mata sim. Mas posso ousar a dizer uma coisa, ela não tem cura. A depressão vai conviver com você até o fim da sua vida, a diferença é como você lida com ela. Tenho meus dias bons, quando me cuido e me vigio constantemente. Mas tenho meus dias de queda, e sim estou “naqueles dias”. É setembro amarelo, tento passar boas mensagens para alertar as pessoas que convivem com pessoas tristes com tendências suicidas, mas um amigo me disse que meu setembro amarelo na verdade está se tornando um setembro cinza. Eu diria que grande parte dos meus meses se tornaram cinzas.  Não há culpado nesta história, não há motivos. As vezes em alguns casos tem algo que desencadeia tudo isso, no meu caso não. Ela simplesmente chega, te abraça e resolve ficar ali com você. Fui pega de surpresa, ela veio e ficou.
Como todo texto tem uma mensagem no final, não sei se meu intuito é deixar algo positivo ou um simples grito de alerta. Talvez um conselho pra quem convive com pessoas assim. Vivo cercada de pessoas incompreensivas, e no estado que me encontro não tenho disposição para lutar, para questionar ou para tentar fazer com que me entendam, me ame, e respeitem minha dor e meu momento. É eu por eu. Os dias se tornam pesados, dormir é mais seguro, ficar quieta no quarto escuro é mais seguro do que lá fora. Os dias vão passando e tudo vai se acumulando. Eu grito por dentro, brigo comigo mesma, tento me autopunir até perceber que essa luta não será (nunca foi) fácil. Não tem receita, não tem dicas e nem conselhos de “como sair dessa”. Cada um sabe do seu momento. O que eu desejo para você que está no mesmo momento que eu é força, e dizer para ter fé, fé em você mesma(o), que uma hora querendo ou não tudo isso vai passar e os momentos bons vão chegar. Para quem apenas convive com pessoas assim, tenha calma e paciência, e ao invés de bombardear de críticas e cobranças, dê amor, carinho, atenção e força. É o que nós precisamos.



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